– Vovô, conta uma história?
– Essa é cem por cento folclore. Num dia de inverno um certo monge encontrou enfiado na neve um pobre coitado. “Qual o seu nome, infortunado amigo?”. “Torneirinha”, respondeu o desgraçado “porque basta me deitar para molhar a cama”. A erudição agradou o monge que carregou Torneirinha para o mosteiro. Torneirinha aqueceu-se, ceou e, quando bem recuperado, em sinal de retribuição, contou uma série de anedotas de salão para os monges. Foi um alegrão. Os monges convidaram Torneirinha para ficar. O inverno era rigoroso e poucos se atreviam a botar o nariz para fora. Torneirinha tinha uma ampla e fiel platéia. E foi assim vivendo, aquecido, contando das suas quando requisitado. Mas logo os monges começaram os preparativos para os folguedos da primavera. Ninguém queria saber das anedotas de Torneirinha. “Não temos tempo a perder com malandros da tua laia, ó figura abjeta” diziam. Torneirinha decidiu exibir suas habilidades em outra freguesia. Pegou um jornaleco e na seção dos procura-se achou: “Mosteiro de S. Perdigotão procura caçoísta. Oferecemos abrigo e sopa de entulho”. Nosso herói partiu no mesmo dia. A temporada no S. Perdigotão foi um estrondoso sucesso. Torneirinha morreu anos depois, substituído por seu discípulo Pedilúvio, que, por sua vez, deu lugar ao Aniceto (o Popularíssimo), seguido do Pinto Costa. Depois veio o Salabanco. Fim.
O menino dormiu empanturrado com a utilíssima moral da fábula.
– Essa é cem por cento folclore. Num dia de inverno um certo monge encontrou enfiado na neve um pobre coitado. “Qual o seu nome, infortunado amigo?”. “Torneirinha”, respondeu o desgraçado “porque basta me deitar para molhar a cama”. A erudição agradou o monge que carregou Torneirinha para o mosteiro. Torneirinha aqueceu-se, ceou e, quando bem recuperado, em sinal de retribuição, contou uma série de anedotas de salão para os monges. Foi um alegrão. Os monges convidaram Torneirinha para ficar. O inverno era rigoroso e poucos se atreviam a botar o nariz para fora. Torneirinha tinha uma ampla e fiel platéia. E foi assim vivendo, aquecido, contando das suas quando requisitado. Mas logo os monges começaram os preparativos para os folguedos da primavera. Ninguém queria saber das anedotas de Torneirinha. “Não temos tempo a perder com malandros da tua laia, ó figura abjeta” diziam. Torneirinha decidiu exibir suas habilidades em outra freguesia. Pegou um jornaleco e na seção dos procura-se achou: “Mosteiro de S. Perdigotão procura caçoísta. Oferecemos abrigo e sopa de entulho”. Nosso herói partiu no mesmo dia. A temporada no S. Perdigotão foi um estrondoso sucesso. Torneirinha morreu anos depois, substituído por seu discípulo Pedilúvio, que, por sua vez, deu lugar ao Aniceto (o Popularíssimo), seguido do Pinto Costa. Depois veio o Salabanco. Fim.
O menino dormiu empanturrado com a utilíssima moral da fábula.


