Monday, November 12, 2007

Pequenas Entrevistas apresenta: Frederico Braga, o colecionador

Pergunta: Como o senhor começou sua coleção?
Frederico Braga: Já na adolescência eu comecei a me interessar por jazz. Juntava o dinheiro da mesada e, como nunca fui um grande freqüentador de casas noturnas, gastava cada centavo com meus discos. Minha coleção cresceu rápido, no entanto as raridades que me apeteciam não só eram difíceis de conseguir como valiam uma dinheirama braba. Mas quando papai morreu tudo ficou mais fácil. Eu vendi o Portinari, o Volpi, o Cícero Dias, o Lasar Segall, o - como é mesmo o nome? – ah sim, Di Cavalcanti. Vendi também o retrato que Tarsila do Amaral fez de papai. Sem contar sua vasta correspondência com poetas, políticos, esse pessoal. Isso também foi tudo vendido. E eu pude comprar muitos, muitos discos.
Pergunta: Seu pai devia ser um sujeito e tanto...
Frederico Braga: Talvez. Mas não tinha nenhum interesse em discos raros.
Pergunta: Quais os discos raros que o senhor possui?
Frederico Braga: Vejamos... Todos da Lola Bragança. Essa cantora, muito pouco conhecida nos dias de hoje, é meu grande xodó. Ela escondia sua origem humilde dizendo ter parentesco com a princesa Isabel. Era uma cantora muito ousada para época, ficou conhecida como a “Favorita dos Estivadores”. Não posso deixar de mencionar os compactos de Ferdinando Carvalhosa, discos que só de lembrar eu... (nesse momento Frederico Braga começa a balbuciar de forma incompreensível). Outra raridade é o último disco de Ademar Nogueira feito logo após sua recuperação do vício em morfina chamado “Erisipela”. Logo em seguida esse grande cantor caiu no ostracismo, o que é uma pena para ele - mas um grande negócio para nós colecionadores.
Pergunta: Deve ter sido um disco muito caro, não é mesmo?
Frederico Braga: Aí que você se engana. Um colecionador deve contar com a sorte e com esse disco em particular a sorte bafejou-me em cheio. È uma historia curiosa: Eu andava pelo Largo da Carioca quando vejo uma figura familiar. Era Ademar Nogueira em pessoa! Ah, mas o pobre coitado estava que era digno de lástima. Contou-me as dificuldades por que passava, que vivia de favor na casa de parentes, não conseguia emprego etc. etc. Eu lhe paguei um sanduíche e, em troca, ele me deu a uma cópia do disco que eu tanto desejava, o único que ele mantinha em seu poder.
Pergunta: E entre os milhares de discos de sua vasta coleção, qual o seu favorito?
Frederico Braga: “Rapioca na birosca” de Lola Bragança. Pobre mamãe, eu a vendi para conseguir essa preciosidade. Mas sabe o que faço, quando a saudade de mamãe bate mais forte? Eu pego a “Rapioca”, sinto aquela belezura em minhas mãos, ouço Lola cantar sem pudores os prazeres da vida e lembro como é maravilhoso ter esse disco. Ah, eu poderia falar durante horas sobre Lola. Mas estou cansado e com sono, então se você me dá licença... (Frederico Braga abaixa a cabeça e dorme).

Próxima entrevista: Raimundo Correia Santa Clara, historiador e entusiasta dos bondes elétricos.