Após terminar seu poema sobre o assassinato de Pinheiro Machado, o professor Cipriano tira um cochilo e...
Está no meio de uma multidão. Um baile carnavalesco tremendo. A canção que anima os foliões é a marchinha “Deram cabo do Machado”. Muitos fazem questão de cumprimentar Cipriano pelo sucesso. Cipriano retribui com choramingos: “Meus alexandrinos, o que fizeram com os meus alexandrinos?...”. (O estribilho rimava Machado com uma palavra que Cipriano desconhecia). Uma gorda deixa a cortesia de lado e acerta um jorro de lança-perfume em seu rosto. Quem presenciou a cena parece se divertir mais que o restante. Em seguida Cipriano está num cais. Uma multidão aguarda o vapor que traz o professor Epaminondas Piratininga de volta da Europa. Epaminondas cruzou o continente, de Lisboa a São Petersburgo, de bicicleta, com enorme sucesso. Durante a viagem escreveu a biografia do comendador Argemiro Caçapava, morto com a idade recorde de 155 anos. A obra de Epaminondas era, portanto, a maior biografia do mundo (outro sucesso inapelável). A multidão aguarda ansiosa. Umas normalistas estendem uma faixa com os dizeres “bem vindo Epaminondas Piratininga, o façanhudo”. (As normalistas parecem estranhamente excitadas). Epaminondas finalmente desembarca, recebido com foguetório e gritos da multidão: “Viva! Salve! Hurra! Aleluia! A galera se levanta e só dá ele, iê, iê, iê, iê, na passarela!” e muitos outros cantos de igual quilate. Para cada ramo de flores, placa comemorativa ou medalha de honra ao mérito que lhe era oferecido a resposta de Epaminondas era o mesmo “por favor, senhores, tenho pressa. Não quero perder o quarto páreo” ou apenas “os cavalos, senhores, os cavalos”. Cipriano tentava abrir caminho na multidão. “Epaminondas! O meu poema! Eu finalmente terminei o meu poema!” berrava. Epaminondas entra num carro e sai a toda quase atropelando um velhote de muletas. Todos os presentes aplaudem. Uma mocinha não resiste e desmaia. Cipriano não consegue conter as lágrimas.
Está no meio de uma multidão. Um baile carnavalesco tremendo. A canção que anima os foliões é a marchinha “Deram cabo do Machado”. Muitos fazem questão de cumprimentar Cipriano pelo sucesso. Cipriano retribui com choramingos: “Meus alexandrinos, o que fizeram com os meus alexandrinos?...”. (O estribilho rimava Machado com uma palavra que Cipriano desconhecia). Uma gorda deixa a cortesia de lado e acerta um jorro de lança-perfume em seu rosto. Quem presenciou a cena parece se divertir mais que o restante. Em seguida Cipriano está num cais. Uma multidão aguarda o vapor que traz o professor Epaminondas Piratininga de volta da Europa. Epaminondas cruzou o continente, de Lisboa a São Petersburgo, de bicicleta, com enorme sucesso. Durante a viagem escreveu a biografia do comendador Argemiro Caçapava, morto com a idade recorde de 155 anos. A obra de Epaminondas era, portanto, a maior biografia do mundo (outro sucesso inapelável). A multidão aguarda ansiosa. Umas normalistas estendem uma faixa com os dizeres “bem vindo Epaminondas Piratininga, o façanhudo”. (As normalistas parecem estranhamente excitadas). Epaminondas finalmente desembarca, recebido com foguetório e gritos da multidão: “Viva! Salve! Hurra! Aleluia! A galera se levanta e só dá ele, iê, iê, iê, iê, na passarela!” e muitos outros cantos de igual quilate. Para cada ramo de flores, placa comemorativa ou medalha de honra ao mérito que lhe era oferecido a resposta de Epaminondas era o mesmo “por favor, senhores, tenho pressa. Não quero perder o quarto páreo” ou apenas “os cavalos, senhores, os cavalos”. Cipriano tentava abrir caminho na multidão. “Epaminondas! O meu poema! Eu finalmente terminei o meu poema!” berrava. Epaminondas entra num carro e sai a toda quase atropelando um velhote de muletas. Todos os presentes aplaudem. Uma mocinha não resiste e desmaia. Cipriano não consegue conter as lágrimas.
... E acorda furioso. Um badalhoco daqueles dando comichão em normalistas! E outra: desde quando ele se preocupa com a opinião de Epaminondas? Hem? Então Cipriano tem uma idéia. Ele pega seu poema, risca a data e corrige: “Niterói, outubro de 2314”. Antes assim. Seus escritos agora não perderiam a atualidade tão cedo. Por essa Epaminondas não esperava.
