Era uma vez um “Rei dos Tecidos” chamado Gumercindo Tracajá dono da maior loja atacadista da rua do Piolho, quiçá do Rio de Janeiro. Suas duas grandes paixões, tirante as rameiras, eram os filhos Armandinho, de dez anos, e Sônia, uma adolescente das boas. Dia e noite Gumercindo pensava no futuro dos filhos. Certo que pensava mais em Sônia. Armandinho ainda era pequerrucho e gostava de dizer, com aquela ingenuidade das crianças, que queria era casar com “a mãezinha”. Há alguns anos inclusive que Gumercindo e sua senhora dormiam em camas separadas a pedido do menino. Mas Sônia era outra história. Moça feita, a última vez que entrou na loja da rua do Piolho um funcionário que pegava uma amostra de tecidos despencou de uma escada e estabacou-se bem. O pobre coxeia até hoje. Mas Gumercindo não dormia de toca e já tinha decidido: Sônia iria se casar com o filho de um compadre seu, o Esmeraldino, janota de posses e de ótima dicção. É escusado dizer que Sônia não dava pelota para Esmeraldino que achava muita graça na recusa da moça. Certo dia, voltando do liceu com as amiguinhas, Sônia deu de cara com sujeito meio chumbado encostado no balcão de um botequim. Soltou um suspiro admirativo e sussurrou pras coleguinhas: “Esse aí é mais bem-apanhado que um Humphrey Bogart tísico”. Desde então todos os dias ela passava para contemplar o pau-d’água. Não descobriu seu nome, mas soube que era conhecido como Bico de Lacre. Era casado e tinha três filhos. Bico de Lacre tinha uma romântica voz fanhosa de quem toma rapé. Quando Sônia apareceu grávida foi um escarcéu em casa: Gumercindo chutou cadeiras, quebrou pratos, espancou a copeira e o mordomo mas, justiça seja feita, não encostou um dedo em Sônia. Para que a vizinhança e o high-life não dessem pela coisa mandaram a menina para ter o filho no leprosário do Alto da Boa Vista, enquanto Gumercindo cuidava da papelada da deserção. Meses depois nasceu Bico Jr. O bebê apreciou muito o clima ameno e decidiu ficar por lá. Sônia se viu então sozinha e sem dinheiro. Hoje Sônia levanta-se às cinco para trabalhar numa autarquia. A noite bate ponto numa boate. Mas deixa claro: é ‘girl’ por necessidade. Em contrapartida, Armandinho é hoje Ministro da Fazenda, o primeiro a sair como destaque numa escola de samba.
FIM
