de Lucien de Rapapé
Primeiro quadro: A aparição do diabo
(Numa elegante galeria Doroteu anda de um lado para outro, como que desnorteado. Aqui entra Ferdinando, seu amigo janota. Ele avista Doroteu e caminha animado em sua direção)
Ferdinando: Meu caro Doroteu, sorte a minha encontrá-lo. Pensava justamente em... Que cara é essa?
Doroteu: Eu... eu acabo de voltar da Tenda das Profecias.
Ferdinando: (desdenhoso) Mais um seduzido por esses tratantes que se dizem especialistas na arte dos augúrios.
Doroteu: Você se engana, Ferdinando. Não é um tratante qualquer, mas o diabo em pessoa. Por 75 centavos um camarada o conjura, e eis que ele surge, todo de vermelho, com chifres de papel machê e lhe entrega a sorte do dia.
(Doroteu retira um cartão do bolso e entrega para Ferdinando)
Ferdinando: (lendo) “Pode apostar que jamais encontrei outra criatura tão encantadora quanto você. Não descansarei, querida Jurema, enquanto não me tornar dono de seu coração. Devotadamente, o anjo dos abismos insondáveis”. Realmente estarrecedor.
Doroteu: E agora? O que eu faço, Ferdinando??
Ferdinando: Ânimo! Amanhã é o seu grande dia! Esqueça esses pelotiqueiros. Se o que você procura são coisas inexplicáveis vá até a Chicane Lyrique, eles têm uma mulher que se transforma em gorila diante dos seus olhos. Num instante ela fica toda peluda. Além do mais, faltam sete horas para a festa de lady Louçania, temos tempo de sobra para uns aperitivos. Vamos!
Segundo quadro: Conseqüências da intemperança
(A cena mostra uma ampla sala cercada por quadros. É nesse lugar onde, após o almoço, os membros do high-life se encontram para fazer a digestão e ficar por dentro das novidades artísticas. A sala está repleta, muitos conversam em pequenos grupos, enquanto outros cochilam nos sofás. Doroteu, isolado dos demais, muito mais pálido que no primeiro quadro, enxuga o suor que jorra abundantemente de seu rosto. Aqui entra Ferdinando que caminha animado em sua direção)
Ferdinando: Meu caro Doroteu, pronto para o grande dia? O dia de sua consagração?
Doroteu: Não sei nem como pude como pude sair de casa. Não depois de ontem.
Ferdinando: Sente-se mal depois dos exageros de ontem, não é? Pois eu conheço um cura-ressaca infalível: antes de dormir tome sempre um vomitivo. Meu médico garantiu que não afeta a saúde e não provoca danos físicos.
Doroteu: Não é nada disso! Eu estou me referindo... as coisas que eu fiz na festa de ontem.
Ferdinando: Coisas? O que você quer dizer? Você esteve ótimo ontem. A festa de lady Louçania não teria sido a mesma sem você.
Doroteu: Sabe a filha do doutor Munácio? (Doroteu com um gesto de cabeça aponta para as três pessoas as suas costas que observam um dos quadros: Munácio, sua esposa Zenóbia e a filha Giralda)
Ferdinando: (olhando por sobre o ombro de Doroteu e demonstrando certa repulsa ao ver Giralda) Sim... ela.
Doroteu: Eu... acertei repetidas vezes suas ancas com minha bengala. Enquanto montava em suas costas e dizia para corremos o derby de amanhã.
Ferdinando: Pois eu não vi nada disso. Mas, se é o que você diz, creio que seja uma ótima hora para pedir desculpas. Munácio não para de olhar para cá.
(Doroteu se vira e seu olhar coincidentemente encontra se com o de Munácio. Doroteu se endireita, enxuga o suor do rosto e caminha em direção de Munácio. Ferdinando também se afasta, na direção oposta, fazendo uma saudação para alguém)
Doroteu: Meu caro senhor...
Doutor Munácio: (sobressaltado) Ah, é você...
Doroteu: Meu caro senhor, eu gostaria de trocar umas palavras com sua filha.
(Giralda não consegue esconder sua alegria por ver Doroteu)
Doutor Munácio: Claro, claro... (ele se afasta sorrateiro. Zenóbia continua do lado da filha observando os quadros)
Doroteu: Minha cara Giralda, na festa de ontem você talvez tenha estranhado algumas de minhas atitudes. Mas quero assegurar...
Giralda: Oh, não precisa dizer nada. (é visível o incômodo de Doroteu quando Giralda começa a falar) Papai já me contou tudo!
Doroteu: Como??
Giralda: Você pediu minha mão em casamento na festa de ontem. E ele consentiu! Não é ótimo? Nós vamos nos casar!
Doroteu: Pelo amor de Deus fale mais baixo!
(o riso de Giralda se desfaz até se transformar num choro escandaloso. Zenóbia encara Doroteu)
Doroteu: O que eu faço pra ela parar?
(sem saber o que fazer, Doroteu atrapalhadamente tapa a boca de Giralda com as mãos)
Zenóbia: (orgulhosa) Ontem o senhor disse que a voz de minha filha era melodiosa como uma cotovia.
Giralda: (diminui o choro e Doroteu retira a mão de sua boca) E como se diverte quando é galante. Disse isso às gargalhadas.
Zenóbia: Ontem o senhor estava ótimo. Mas vejo que hoje voltou ao seu normal.
Doroteu: (lívido) Com licença senhoras, mas infelizmente tenho negócios a tratar. O mais longe daqui possível.
(Doroteu se afasta, caminhando em desespero entre os grupos que conversam no salão, até que surge Vera Lúcia – a apetitosa Vera Lúcia – e segura seu braço)
Vera Lúcia: (afetuosamente) Doroteu, você poderia devolver o meu sapato?
Doroteu: Seu sapato?
Vera Lúcia: Sim, o que você roubou durante o jantar de ontem, quando se arrastou por debaixo da mesa para... se divertir com meus pés.
(petrificado pela estupefação, Doroteu não tem palavras)
Vera Lúcia: Eu fiz o que pude para que ninguém percebesse. Mas gostaria de tê-lo de volta. Antes que meu marido desconfie de alguma coisa
Doroteu: Eu restituirei assim que for possível.
(Doroteu começa a se afastar)
Vera Lúcia: Doroteu!
(Doroteu se limita a virar o rosto em direção de Vera Lúcia)
Vera Lúcia: Ontem você estava de arder.
(Doroteu volta a se afastar. Esbarra em algumas pessoas, em aflição cada vez maior. Até que uma mulher de braços cruzados- lady Louçania - barra seu caminho. Doroteu dá meia volta)
Lady Louçania: Doroteu!
Doroteu: (voltando-se) Minha cara lady Louçania. Gostaria de pedir desculpas pelo meu comportamento na noite de ontem.
Lady Louçania: Você devia se envergonhar. Meu cocheiro disse que o senhor apontou uma pistola para ele e o obrigou a passar por cada estalagem e taverna que ainda estivesse aberta. Só mais tarde ele descobriu a farsa: o senhor não estava armado, era apenas o seu dedo indicador por debaixo da blusa.
Doroteu: Eu não sei o que houve comigo ontem. Devo ter arruinado sua festa.
Lady Louçania: Não diga besteiras, você estava ótimo! Eu só não quero que corrompa meus empregados.
(Lady Louçania se afasta. Tomado de estupor, Doroteu continua no mesmo lugar. Aqui entra Ferdinando)
Ferdinando: (rindo) Você perdeu a piada que aquele arcebispo contou.
Doroteu: Parece que eu pedi Giralda em casamento ontem.
Ferdinando: Sim, eu sei.
Doroteu: O quê??
Ferdinando: Alguém me contou, acho que foi Polidoro. Parece que o próprio Munácio lhe pediu para espalhar a notícia.
Doroteu: Como eu posso ter feito uma coisa dessas...
Ferdinando: Eu vou saber? Não era você que a chamava de gárgula, Quasímodo, monstro antidiluviano, Calibã?
Doroteu: Eu mesmo...
Ferdinando: Já vi muito desses matrimônios improváveis acontecerem antes. Principalmente nos romance da... como é mesmo o nome? Aquela, a solteirona, amiga de dona Clélia? Não importa. Mas por que você não troca uma palavrinha com o arcebispo? Não sei se será de grande ajuda, mas suas histórias são de uma gaiatice rara.
(eles caminham até o arcebispo que, ao ver Doroteu, interrompe a piada que contava e ergue os braços para os céus)
Arcebispo: Pelo sangue de Jesus! O que deseja de mim hoje??
Terceiro quadro: Doroteu burlado
(Doroteu, em seu convidativo gabinete, está atarantado atrás de sua escrivaninha. Vem Joaquim, o moleque de recados)
Joaquim: Mandou me chamar, senhor?
Doroteu: Sim. Entregou minha carta para senhorita Giralda?
Joaquim: Não exatamente, senhor.
Doroteu: (exasperado) O que você quer dizer com “não exatamente”?
Joaquim: Quero dizer que entreguei a carta, mas não exatamente a que o senhor escreveu.
Doroteu: Explique-se melhor! (fingindo tranqüilidade) Mas não tenha pressa, eu ouvirei com toda a calma as suas razões. Para em seguida chicoteá-lo, pequeno traidor!
Joaquim: Na minha opinião, senhor, o conteúdo da carta não era digno de um homem de sua posição. Portanto, eu a reescrevi, substituindo as ofensas por termos refinados, como deve convir a um cavalheiro.
Doroteu: (novamente exasperado) Então por que não usa o seu talento para escrever uma nova missiva, desta vez maldizendo os caprichos da fortuna??
Joaquim: É pra já, senhor. (sai Joaquim)
Doroteu: (cai de joelhos) Oh, novamente vítima da perfídia humana!
(entra Ferdinando, que caminha animado em sua direção)
Ferdinando: Meu caro Doroteu, o que aconteceu dessa vez? Perdeu algo?
Doroteu: Escrevi uma carta para Giralda e...
Ferdinando: Ainda pensando nisso?
Doroteu: E como poderia deixar de pensar nisso? Eu não pedi a mão de Giralda em casamento, tudo não passou de uma cilada de Munácio. Ele espalhou essa história na festa de lady Louçania para se vingar por eu ter achincalhado sua filha.
Ferdinando: (indiferente) Claro, claro. Agora que tudo foi resolvido, por que não vamos ao Chicane Lyrique? Eles têm uma nova atração: ela se chama Astrobélia e é um encanto. Creio que seja uma cantora. Ela estava na festa de lady Louçania.
Doroteu: Meu Deus...
Ferdinando: E desde então vive perguntando por você.
Doroteu: (desanuviando-se) Vive perguntando por mim?
Ferdinando: Sim.
Doroteu: E é encantadora?
Ferdinando: Pode apostar que sim.
Doroteu: Onde está aquele moleque? Joaquim! (entra Joaquim)
Joaquim: Mandou me chamar, senhor?
Doroteu: Esqueça o que lhe pedi, tenho uma nova encomenda. Faça um bilhete, em estilo jocoso-sentimental, para a formidável cantora Astrobélia. E por favor, capriche nos elogios hiperbólicos.
Joaquim: É pra já! (Joaquim tira um bloco do bolso e o lápis pendurado na orelha e começa a escrever)
Ferdinando: Arrume-se, faça a barba, porque (vendo as horas) faltam apenas cinco horas para o espetáculo. Nesse ínterim podíamos nos divertir com uns aperitivos, não é mesmo?
Wednesday, January 16, 2008
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