Tuesday, February 17, 2009

O pessoal do sítio de Dona Benta no Rio de Janeiro

I. Jecas... à la mode

Narizinho, Pedrinho, o Visconde, Emília e o Marquês de Rabicó acordaram cedo para aproveitar bem a estadia no Rio de Janeiro. Correram todos para a pensão na Lapa em que o Saci estava hospedado.
- Saci, vamos à rua do Ouvidor? – berrou lá de baixo a criançada.
- Não posso, tô com maleita.
Emília sem demora mandou o Saci a coisa imunda e retomaram o caminho, menos o Rabicó, que seguiu para o beco das Carmelitas atrás de uma madama ou qualquer coisa menos roceira que a Emília.
O embasbacamento foi coletivo com o comércio elegante da rua do Ouvidor e Narizinho propôs que a primeira parada fosse na Mme. Chanfalho (modista ilustre). Não pegava bem, argumentava ela, ficar andando de botina zebu na Capital Federal.
- Está conforme – disse Pedrinho, quando viu Emília contando um enorme bolo de notas. - Onde você arrumou isso, sua ratoneira de uma figa?
Emília explicou que ratoneira era a senhora mãezinha dele e que conseguiu a gaita vendendo pó de pirlimpimpim misturado com fulminato de sódio para um grupo de poetas nefelibatas.
- Esse pessoal cheira mais que cão sabujo – esclareceu a boneca.
A iniciativa de Emília foi muito elogiada, todos sabiam que com dinheiro não se brinca*. E Visconde foi logo alertando todos com suas explicações técnicas.
- Realmente é uma boa idéia essa de no embonecarmos como manda o costume local. Mas fiquem atentos, a maroteira que assola essa cidade é de amargar. Isso aqui não é o Capoeirão! - lembrou o sabugo de milho.
E lá se foi o pessoal do sítio a procura de sarna para se coçar.

II. A correspondência de Narizinho

Querida vovó,
Ontem, a pedido meu, fomos à rua do Ouvidor modernizar nossos guarda-roupas. Não sei se foi boa idéia. Pedrinho, por exemplo, se transformou num rematado francelho. Como se não bastassem as roupas de chamar a atenção, Pedrinho a todo o instante diz coisas como “cachet-pot”, “bater em retirada”, “chaise-longue”, “ao abrigo de”, “degringolada”, “détraqué”, “em plena rua” e outros galicismos que são o terror do Visconde.
Seguimos depois para a Candelária quando damos de cara com o Tio Barnabé e o Saci, ambos bem chumbados. Emília não perdoou.
- Olha ali o bilontra do Saci. Você não estava morrendo?
- Esconjuro! Foi esse desgraçado do Tio Barnabé que me arrancou da cama pra pagar cachaça. Estou que não posso em pé.
Emília pigarreou se preparando para lançar umas poucas e boas mas o Tio Barnabé já tinha dado o pira.
- E você, ímpio, vem com a gente pra igreja – disse Emília arrastando o perneta.
A igreja é uma beleza mas na saída foi outra entalação. É que o Visconde e o Saci, respeitosamente, descobriram as cabeças na entrada, deixando os chapéus na chapeleira da igreja, e quando íamos embora o Visconde, por descuido, botou a carapuça do Saci no lugar da cartola. O sabuguinho ficou com o juízo meio falho e foi correndo aos berros para o Mangue. Não sei o que o Visconde aprontou (e não deve ter sido pouco), mas dois dias depois ele voltou ao hotel acompanhado de uma marafona. Emília, por diversão, anda espalhando que o Visconde está de casamento marcado com a Zuleica Rabo-de-Arraia (que é a graça da marafona). Está tudo bem com o Visconde agora que ele voltou a usar a cartolinha. O Saci é que sem sua carapuça definhou e acabou enterrado como indigente.
E isso não é tudo. O Rabicó deu pra janota, arrumou um emprego como cronista na Gazeta de Notícias e publicou um volume intitulado Emilianas – máximas pouco asseadas da boneca Emília. Ela, é claro, não gostou nem um pouco e passou-lhe um sabão: “Rabicó, desde que chegou ao Rio você só pensa em carraspana e agora me escreve uma bandalheira dessas? Ah, mas eu sei muito bem o que fazer com patifes de sua laia!**”
A obra do Rabicó foi um inesperado sucesso editorial e Emília quer porque quer escrever um best-seller para concorrer com o Marquês e botou o Visconde pra escrever tal livro. Visconde começou seus estudos para, cientificamente, realizar uma obra muito superior. Acompanhou a cotação dos vocábulos e chegou a conclusão que os de origem espanhola estavam mais em voga. Depois de muitos estudos ele já conseguiu o título: La cadena del cuarto de baño no funciona. Agora falta o resto.
É isso vovó, nossa viagem acabou se transformando em uma opereta de costumes brasileiros.
Mande lembranças para a vaca Mocha.
Sua neta que tanto lhe quer,
Lúcia Encerrabodes de Oliveira

P. S.: Emília deu um jeito de ler a carta antes que eu a mandasse. Achou muita marotagem da minha parte sair escrevendo sobre todos e não reservar nenhuma palavrinha sobre mim. E finalizou me chamando de “sirigaita enredeira”.




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* Conforme bem aprendido em Dona Benta e o encilhamento.
** Ver o Livro de receitas da Tia Anastácia, Capítulo III – O torresmo.